quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Humberto Fraceschi

Humberto Franceschi é fotógrafo publicitário de profissão e obcecado pesquisador de música brasileira por opção. Presente desde pequeno em reuniões caseiras promovidas pelo seu avô, nas quais se ouvia e discutia música, Franceschi desenvolveu a paixão pela música popular brasileira e, em 1941, começou a juntar discos. O resultado é que 60 anos depois, o pesquisador se viu com um rico acervo que contempla desde as primeiras gravações da Casa Edison, representante da Odeon no Brasil, até fonogramas inéditos com a velha guarda do samba.
Pesquisador detalhista e exigente, Franceschi se considera apenas um “fuçador” da música brasileira. Meticuloso, procura levar suas pesquisas até a comprovação dos fatos que a mídia e os trabalhos menos acurados insistem em divulgar como verdadeiros. “O que eu quero é acabar com os chutes e mentiras que existem por aí”, diz. Do mesmo modo que José Ramos Tinhorão, seu amigo pessoal, Franceschi é avesso ao estudo acadêmico da música popular. “Um dia, uma pesquisadora de São Paulo me ligou e pediu permissão para usar informações de um livro meu, ao que atendi prontamente. Então ela perguntou quais eram meus créditos universitários. Ao dizer que não tinha nenhum, ela se desculpou e falou que não poderia usar minhas informações. Quer dizer então que meu trabalho não é de qualidade?”, questiona. Se os conhecimentos de Franceschi não são acadêmicos, eles vêm da convivência do pesquisador com pessoas como Sérgio Porto, Lúcio Rangel e Almirante, todos grandes estudiosos da música brasileira, além de músicos do porte de Cartola, Baden Powell e de seu primo, Vinicius de Moraes.
Ao longo dessas décadas de envolvimento com a música, Franceschi desenvolveu uma grande paixão pela fase mecânica da gravação. Em 1984, publicou o livro Registro Sonoro por Meios Mecânicos no Brasil, no qual explica o surgimento da gravação mecânica, a chegada dessa tecnologia ao Brasil e todo o processo de comercialização da música desencadeado com a fundação da Casa Edison pelo austríaco naturalizado brasileiro Frederico Figner.
Colega de escola de uma das netas de Fred Figner, o pesquisador teve o caminho aberto para entrar em contato com as filhas do comerciante, que aceitaram lhe dar informações sobre a Casa Edison. “As filhas do Figner me cederam muita coisa. Não o arquivo em si, mas o que elas se lembravam, um ou outro documento que tinham. Isso foi o que eu botei no Registro Sonoro”, explica. Na década de 90, o pesquisador pode ter o contato direto com os documentos. “Eu tive acesso ao resíduo do arquivo da Casa Edison. Resíduo porque foi destruído quase tudo. Mas com os documentos restantes na mão eu pude ver que muita coisa havia sido chutada e poderia ser esclarecida. Aí eu consegui fazer coisas que ninguém sabia porque não tinha documentação”, conta. O resultado é o livro A Casa Edison e Seu Tempo, uma edição luxuosa de 300 páginas que conta detalhadamente a história da primeira gravadora a surgir no Brasil e busca derrubar alguns mitos criados sobre ela ao longo do tempo.
Um desses mitos é o do primeiro disco gravado no Brasil. A partir dos documentos analisados, Franceschi afirma que o famoso disco com o lundu “Isto é Bom”, de número 10.001, foi o primeiro etiquetado no país e o primeiro a aparecer no catálogo da Casa Edison. Entretanto, não há documentação que comprove ter sido esse o primeiro disco gravado em terras brasileiras. O pesquisador explica que junto com ele foram gravadas outras 174 ceras, mandadas para a Alemanha em caixotes. No navio, três caixas acabaram destruídas porque ficaram perto das caldeiras. Assim, das 175 ceras sobraram apenas 150, sendo portanto impossível precisar qual delas foi a primeira gravada por aqui. Primando por desmistificar as histórias que cercam a existência da Casa Edison, Franceschi anexou ao livro 5 Fotos-CDs com os documentos analisados escaneados em ótima resolução e possibilidade de impressão. Há um CD com documentos diversos, um com partituras manuscritas e outro com impressas, além de dois com arranjos. Ao todo são 21 mil documentos. “O que existe de arquivo da Casa Edison está dentro do livro, você pode botar no computador, imprimir, fazer banco de dados. Isso facilita a vida de todo mundo”, explica. Entre a documentação disponível estão os contratos de compra dos direitos autorais feitos por Fred Figner. Com isso, Franceschi busca derrubar outro mito: o de que Figner não pagava os direitos autorais de seus artistas. “Eu peguei quase 2 mil contratos de direito autoral, o que muda o conceito dessa história toda”.
Também anexados ao livro estão 4 CDs com as 100 canções mais significativas daquela época, que permitem ao leitor acompanhar a história da música gravada no Brasil a partir da audição de registros originais. Na margem da página há indicações do número do CD e faixa em que se encontra a música à qual o texto se refere naquele trecho.
Essa obra é um dos produtos resultantes do projeto feito pelo Instituto Moreira Salles em parceria com a Petrobrás. Chamado Reserva Técnica Musical, o projeto abriga o Centro Petrobrás de Referência da Música Brasileira. Também fruto dessa iniciativa é a caixa Memórias Musicais - uma coleção de 15 CDs com gravações da Banda do Corpo de Bombeiros e Banda da Casa Edison, Pixinguinha, Luís Americano, Patápio Silva, entre outros. Assim como os 4 CDs que acompanham o livro, essa caixa foi feita a partir da restauração do acervo de 6 mil discos 78 rpm (12 mil gravações que compreendem o período de 1902 a 1950) vendido por Humberto Franceschi ao Instituto Moreira Salles. “Essas gravações correspondem a cerca de 30% do que foi gravado no Brasil na primeira metade do século 20”, explica o pesquisador. Os originais estão todos acondicionados no prédio do Instituto, e quem for até lá pode ouvir as 12 mil gravações recuperadas do acervo do pesquisador. Os fonogramas também podem ser ouvidos na internet, no site do instituto (www.ims.com.br).

Acervo

Além dos 6 mil discos vendidos para o Instituto Moreira Salles (que Franceschi ainda guarda, mas compactados em 770 CDs), o acervo do pesquisador guarda outras relíquias da música brasileira. Tem, por exemplo, uma gravação caseira feita com Baden Powell. O pesquisador preparava um documentário e sugeriu ao violonista fazer alguma coisa em cima do Abismo de Rosas, de Dilermando Reis, para a trilha sonora do filme. Baden aceitou o desafio, mas não se lembrava dos acordes da música. A solução foi ligar para Dilermando, que assobiou os primeiros acordes, e assim o violonista seguiu tocando 14 minutos de improvisação. O filme acabou não saindo e a gravação
ficou guardada por algum tempo. Com o surgimento da tecnologia digital, Franceschi permitiu que o material fosse passado para o novo sistema, mas não se mostra satisfeito com o resultado. “A reprodução é um violão estridente, metálico demais. A minha gravação é mais cheia, tem mais cara do violão que eu entendo”, comenta colocando para tocar uma gravação em seguida da outra.
Há também em seus guardados uma série de 127 programas da extinta Rádio Tupi, nos quais se apresenta o mestre Pixinguinha. Para o pesquisador, essas fitas chegaram às suas mãos por “um acidente desses caídos do céu”. Ele conta que o contra-regra da rádio era apaixonado por Pixiguinha e, em vez de jogar fora os acetatos com gravações do músico depois que o programa ia ao ar, como era o costume, ele os guardava. “No fim de um certo tempo ele pegou os discos e deu para o Almirante. Eu soube, liguei para o Almirante e ele disse que deixaria os discos comigo até domingo. Era uma sexta-feira e eu saí a mil, copiei tudo e devolvi pra ele. Os discos sumiram. Eu tenho aqui os 127 programas. São 200 músicas. Isso foi tocado uma única vez, às quartas-feiras, de 1947 até 1952”, conta com orgulho.
Franceschi guarda também uma cópia do arquivo do pesquisador Lúcio Rangel, que vendeu seu acervo de discos para o governo de Carlos Lacerda fazer o Museu da Imagem e do Som (MIS). “Quando o Lúcio vendeu o arquivo para o Carlos Lacerda eu fiquei com medo de perdê-lo e combinei com o Sérgio Porto de copiar tudo em fita de rolo. Aí aproveitei e copiei o do Sérgio também. Um ano depois o Lúcio me disse que foi fazer uma fita para o aniversário de um amigo e todos os seus discos tinham sumido. Quando ele precisava de alguma coisa vinha aqui e copiava
dos meus”, conta Franceschi.
Outra raridade que está nas mãos de Franceschi são os álbuns originais com as 33 gravações feitas pelo maestro Stokovski dentro de um estúdio montado no navio SS Uruguai, em 1940, em um evento que fez parte da política da Boa Vizinhança. “Isso foi Vinicius (de Moraes), meu primo, que me deu. Ele era cônsul em Los Angeles quando saiu o álbum, e mandou um para mim e um pro Lúcio Rangel”, conta. Esse álbum, dois discos com 8 músicas cada, não foi lançado no Brasil e até
hoje não foi encontrada a matriz, que deve estar nos EUA. Entre os registros feitos pelo maestro Stokovski estão canções com Pixinguinha, Jararaca e Ratinho, Zé Espinguela, entre outros. “O álbum do Lúcio foi pro Carlos Lacerda fazer o MIS e acabou sumindo. O Arnaldo Vasconcelos também tinha um álbum que acabou me dando. Eu tenho dois”, completa.
Ele guarda também 103 das 130 gravações feitas para a Feira Mundial de Nova Iorque, em 1939. Dentre elas estão as famosas Bachianas, de Villa-Lobos, autografadas pelo próprio compositor. A Feira foi um evento que serviu para difundir entre os americanos uma imagem positiva dos países latino-americanos. O pavilhão brasileiro foi projetado por Lúcio Costa e Oscar Niemeyer e teve como grande atração a música, mas também apresentou telas de Cândido Portinari, e obras escritas de Machado de Assis, Manuel Bandeira e Gilberto Freyre, além de recursos naturais como madeira e minérios.
As relíquias de Franceschi incluem ainda gravações inéditas de Cartola. Quando Sérgio Porto conheceu o compositor lavando carros na Garagem Oceânica, na rua Visconde de Pirajá, fez cerca de 50 gravações com ele e guardou de lembrança. Com a morte de Sérgio Porto, Franceschi ficou com essas fitas. “Um dia o Cartola me ligou e disse que ia gravar um LP, mas não se lembrava
mais das músicas que tinha feito no princípio. Eu disse que poderíamos fazer uma troca: ele ouviria as gravações que estavam comigo e, em compensação, eu queria que ele me mostrasse as novas composições. Ele veio aqui em casa, eu botei um gravador em cima da mesa e ele cantou 70 músicas e declamou poemas. Isso nunca ninguém ouviu, nunca ninguém cantou. “Essas gravações do Cartola foram feitas dois meses antes do 1º LP (lançado pela Marcus Pereira). Algumas das músicas estão no disco, mas a vantagem é que eu tenho ele tocando violão sozinho, coisa que não existe gravada. Em geral são aquelas coisas com arranjos, mas ele sozinho com o violão é muito difícil”.
Para o pesquisador, a maior importância desse material é desfazer o preconceito existente com relação à música antiga. “A tragédia da música brasileira é a chamada nova roupagem. As releituras, em geral, não são releituras, são assassinatos. O segredo desse negócio de música de uma determinada época para trás é a transcrição, ou seja, como você tira do disco e transporta para um suporte digital. Naquele período, as gravações eram feitas com um microfone só e o segredo era a disposição dos músicos em volta do microfone. Havia uma coisa básica que era manter o ambiente de sala, um diálogo musical feito dentro de uma cubagem definida. No conceito digital de hoje não existe isso. Um cara grava aqui, outro grava em Nova York, outro na conchinchina, um outro cara coloca a voz e fica aquela coisa híbrida. É um arranjo”, explica.
No prefácio do livro Registro Sonoro Por meios Mecânicos no Brasil, Humberto Franceschi diz que “se o critério fosse voltado para o uso de toda a potencialidade que a nova tecnologia oferece, os resultados seriam surpreendentes para os que não conhecem o que se fez no passado, e tudo perfeitamente integrado à sensível exigência da linguagem auditiva atual. Infelizmente isso não tem acontecido. As oportunidades - geralmente patrocinadas por empresas comerciais sob a forma de brinde resultaram quase sempre num desserviço, transformando esse tipo de trabalho numa arma efetiva de contra cultura”.
Ele acredita que a internet é o melhor canal para a divulgação da música brasileira. “Foram gravadas 70 mil músicas entre 1902 e 1950. Se você classifica pedagogicamente 5% disso, você muda a cabeça das pessoas”. Pelo menos a sua parte ele já fez.

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