sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

José Ramos Tinhorão

A imagem que se tem de José Ramos Tinhorão é de um senhor rabugento, nacionalista e inimigo da Bossa Nova. São estereótipos criados pela mídia que gosta de intitular de maneira sensacionalista matérias sobre Tinhorão. “Obsessivo Maldito” ou “O inimigo da MPB está de volta” são alguns exemplos. Mas a história do pesquisador - sim, porque antes de ser o crítico de música ele é um pesquisador - mostra que esse lado tão comentado e exposto representa um ponto de vista (polêmico ou não) formado a partir de estudos sobre as origens da música urbana brasileira.
Tinhorão ganhou essa imagem de “malvado” quando começou a escrever a coluna “Primeiras Lições de Samba” no Jornal do Brasil, em fins da década de 50, onde fez suas primeiras críticas ao movimento “bossa novista”. Foi nessa época também que ele começou a juntar o material que hoje compõe o seu acervo, vendido para o Instituto Moreira Salles em 2000.
Nascido em Santos, Tinhorão passou a infância e a juventude em Botafogo, no Rio de Janeiro. Antes de se apaixonar pela música brasileira, era um aficcionado por literatura. Com 16 anos aprendeu a ler em francês e fascinou-se pelos autores franceses do século 18. Nessa época, a curiosidade o levou a constantes descobertas na área literária. “Foi meu pai que me apresentou o Aluisio Azevedo. Quando li O Cortiço, gostei tanto que saí procurando outros livros do mesmo autor. E assim li toda a obra de Aluísio Azevedo, o que me levou até O Ateneu de Raul Pompéia”, conta. “Eu me fixei em determinadas coisas. Gostava de literatura e passei a ler também história da literatura. Aí enveredei por esse lado”, completa.
A música veio depois, enquanto cursava jornalismo na Faculdade de Filosofia do Rio de Janeiro. Na casa de Humberto Franceschi, seu colega de faculdade, Tinhorão conheceu Ismael Silva e Nelson Cavaquinho. Mas a música ainda não se tornara sua grande paixão. Em meados da década de 50 começou a trabalhar como copidesque no Diário Carioca, e aproveitava o tempo fora da redação para escrever textos que oferecia ao Segundo Caderno do jornal de domingo. Numa dessas vezes fez uma reportagem sobre as tentativas de introduzir camelos no Brasil. “Descobri que D.João VI já
tinha trazido camelo do norte da África para o Rio de Janeiro e Ceará”, conta. No Diário, nunca escreveu uma linha sobre música. Quando foi para o Jornal do Brasil, em 1958, Sérgio Cabral escrevia a coluna Música Naquela Base, na qual, segundo Tinhorão, entrevistava sambistas com
seriedade pela primeira vez. Um outro colunista, Luiz Orlando Carneiro, estava escrevendo uma série de artigos semanais chamada Primeiras Lições de Jazz. Quando estas “lições” chegaram ao fim, o diretor do Segundo Caderno, Reinaldo Jardim, sugeriu a Tinhorão fazer as Primeiras Lições de Samba. Sem nunca ter escrito sobre música, ele disse que seria difícil porque não havia nenhuma bibliografia específica a respeito do tema. A resposta do diretor veio rápida: “Se não tem, você entrevista, procura”. O desafio fora lançado e Tinhorão saiu em busca de informações que pudessem nortear seus artigos. Os únicos livros sobre música popular que existiam no início dos anos 60 eram Brasil Sonoro, de Mariza Lira; Na Roda do Samba, de João Guimarães; Samba, de Orestes Barbosa; Reminiscências dos Chorões Antigos, livro de memórias escrito pelo carteiro Alexandre Gonçalves Pinto; e Sambistas e Chorões, de Lúcio Rangel. “Diante dessa dificuldade de não ter material, eu comecei a entrevistar as pessoas”, conta.
O pesquisador guarda em seu acervo três entrevistas gravadas em fitas cassete com João da Baiana; uma longa entrevista com Heitor dos Prazeres, em que ele explica a famosa briga com Sinhô por causa da autoria de sambas, além de conversas com Donga e Luiz Peixoto. Tinhorão lamenta não ter gravado a entrevista feita com Pixinguinha, que ainda rapaz fez parte de um grupo chamado Choro Carioca, pelo qual gravou cerca de 5 discos na Casa Faulhaber. “Levei os discos dessa época para ele escutar, e ele me disse que não ouvia aquelas gravações havia mais de 40 anos.” Sem poder gravar as impressões de Pixinguinha, Tinhorão foi anotando tudo o que podia nas capas dos discos, que estão todas guardadas no seu acervo. Tem também uma entrevista com um sambista da Serrinha, bloco que deu origem a escola de samba Império Serrano, gravada quando este estava moribundo num hospital público. Foi esse senhor, de cujo nome Tinhorão não se lembra, quem lhe explicou que os blocos carnavalescos que desfilavam na Praça XI, onde havia muitas casas funerárias, sabiam qual era o que mais agradava ao público pelo número de miniaturas de coroa de flores colocadas na ponta da vara que sustentava a bandeira. “Os donos de funerárias ficavam sentados na porta de suas casas e quando gostavam da apresentação de um bloco colocavam uma coroa pequenininha na ponta da bandeira”, explica. “Essas informações preciosas foram fazendo meu acervo pessoal de depoimentos”, completa.
Ao mesmo tempo, Tinhorão começou a formar pastas com recortes de jornais que continham alguma informação sobre música. “O jornal é o tipo de documento que dá uma idéia da multiplicidade de fatos que compõem a realidade”, diz. O resultado é um arquivo com cerca de 34 mil recortes, indexados por assuntos e personagens. Estão lá pastas com material de imprensa sobre a Bossa Nova no Carnegie Hall, o Tropicalismo, a MPB no exterior, Jingles, Música e Alienação - ídolos hippies e anos 70, teatro de revista, cinema e TV, origens do samba, plágios, e muitos outros. Nesta última, está a partitura do samba Violão Amigo, de Bide e Marçal, que, segundo Tinhorão, é a música plagiada por Tom Jobim em Desafinado. “Se alguém duvidar, eu posso comprovar”, desafia.
Nos sebos do Rio de Janeiro o pesquisador encontrava, além de livros, revistas e partituras que ia levando para casa. Ele conta que procurava nos anúncios de sebos do Correio da Manhã os livros mais interessantes e ia marcando com um grifo. “Às vezes marcava quatro, mas só comprava um. Ali está a marca de muitas compras frustradas”. Ao mesmo tempo em que lia sobre música e entrevistava os artistas, Tinhorão sentia necessidade de ouvir as canções. Começou então uma busca por discos da época do gramofone, colocando anúncios em jornal. Quando já acumulava uma quantidade considerável de material ele publicou, também no Jornal do Brasil, uma série chamada Contribuição à Bibliografia da Música Popular Brasileira. “Foi a primeira vez que alguém levantou uma bibliografia do que existia impresso sobre música popular no Brasil”, explica.
Por causa das “Primeiras Lições de Samba” e deste levantamento bibliográfico, Tinhorão se sentiu obrigado a continuar sua busca por informações. “Eu já tinha um tal material acumulado e tanta gente me perguntava coisas, que eu precisava justificar. Sem querer me transformei em um estudioso de música popular brasileira.” Mas o estudioso acabou sendo sufocado pelo crítico, como é mais conhecido. “As pessoas me identificam como o cara que esculhamba a Bossa Nova. O Tinhorão sério, das pesquisas que saem em livro, ficou esquecido.” Abordando temas relacionados à música e à cultura popular urbana, Tinhorão foge do tipo de estudo acadêmico. “Os intelectuais da universidade comem Tinhorão e arrotam Mário de Andrade. A Universidade não aceita que alguém que não seja da máfia deles chegue a hipóteses interessantes. Eu tenho a cópia de uma tese de
Minas Gerais que diz assim ‘Certos autores levantam a hipótese...’, e continua com uma idéia minha. Eles não dizem que colheram o dado num livro do Tinhorão”, explica. “Meus livros não são algo para morrer. Eu tenho certeza que daqui a 30 ou 40 anos quem quiser estudar a história da música no Brasil vai ter como autor básico o Tinhorão”, completa.
O pesquisador aponta que o grande diferencial de seu trabalho é abordar os fatos a partir do ponto de vista do materialismo histórico, adotado por ele quando teve contato com a obra de Marx e Engels. “Percebi que era muito fácil compreender os fenômenos sócio culturais sabendo que as relações humanas no mundo capitalista não se dão apenas entre uma pessoa e outra, mas também entre classes”, explica. Assim, ele sustenta a polêmica tese de que a Bossa Nova é americanizada e jamais foi popular no Brasil. “A Bossa Nova era um negócio que não tinha nada a ver com o processo cultural brasileiro. Ela surgiu na classe média carioca, que era muito nova e estava adquirindo os bens, como rádio e toca-discos, que o capitalismo permite às pessoas com um certo poder aquisitivo. Ela não ia comprar um aparelho caro para ficar ouvindo crioulo falando em morro, então consumia música americanizada”, explica.
Mas, para além de suas teses controversas sobre a Bossa Nova, o estudo de Tinhorão busca sistematizar informações. Em Os sons que vêm da rua, por exemplo, ele faz um levantamento de todo tipo de ruído que se podia ouvir nas ruas do Rio de Janeiro naquele final da década de 70. “O que se perde no Brasil da história oral que poderia ser aproveitada pela história escrita são coisas incríveis. A sociedade é muito dinâmica, e em 20 anos uma coisa desaparece”, afirma. O pesquisador acredita que muito do que se tem de lacuna na história é porque se deixou perder o
testemunho das coisas. “Eu percebi isso imediatamente e comecei a acumular material”.

Acervo
Para Tinhorão, os acervos nascem ou de uma paixão ou de uma necessidade. “No meu caso resultou de uma necessidade que se transformou em paixão”. Metódico em suas análises, o pesquisador foi angariando todo tipo de material que contivesse alguma referência à música popular urbana para formar o acervo que lhe deu as bases para desenvolver sua obra. Dezenas de pôsteres de filmes, como dos musicais de Mazzaropi, e centenas de programas e cartazes de shows, como o do projeto Seis e Meia, estão no seu acervo. “Tudo isso é material de informação, com os nomes dos músicos que se apresentaram no espetáculo, além de onde e quando aconteceu”, explica. Está no seu arquivo um cartaz desenhado por Ziraldo para o1º Festival Internacional da Canção, que marcou o início da era dos festivais da TV Record.
Um dos pontos fortes do acervo são as partituras. Elas estão divididas por autores ou temas: Assis Valente, Cândido das Neves, Mário Lago, Nássara, Luiz Gonzaga, Wilson Batista, Sinhô, Marcelo Tupinambá, Waldir Azevedo, Raul Torres, João de Barro, edições estrangeiras de partituras de MPB, músicas sobre o rádio, músicas para crianças, músicas de teatro de revista, músicas de sala de espera de cinema, entre outras. “Isso é importante porque você tem o espírito da época. Se alguém quiser fazer um filme daqui a 50 anos que seja passado no Rio de Janeiro da década de 20 e tem uma cena que se passa na sala de espera do cinema, é só pegar as partituras da época e colocar a banda para tocar”, comenta.
O Carnaval é um capítulo à parte no acervo de Tinhorão. Ele guardou partituras dos grandes sucessos de carnaval desde a década de 30. Os recortes de jornal sobre o assunto estão em pastas organizadas desde 1969 até 2002. Na parte fonográfica, ele tem os discos com os sucessos carnavalescos desde o início do século 20, em 76 e 78 rotações, até o aparecimento dos LPs, em meados da década de 50.
Na parte de livros estão mais de 8 mil obras que interessam ao estudo da música popular. São livros de literatura, contos, crônicas, memórias, teatro, poesia, cordel e artes. Há livros sobre instrumentos musicais, catálogos, e a literatura produzida por gente do rádio, como um livro de crônicas do Osvaldo Moles e Acabaram de Ouvir..., de César Ladeira.
Tinhorão guardou também uma série de revistas. Tem a coleção quase completa das publicações de atualidades O Malho (desde 1902), A Careta, Fon-Fon, Seleta, Revista da Semana, Ilustração Brasileira, Carioca e Cine-Rádio-Jornal. Arquivou também os títulos que apresentavam reflexões sobre o cenário político-histórico-cultural brasileiro: Cultura Política, Cultura (do Conselho Federal de Educação), Revista MEC, Civilização Brasileira, Revista Brasileira de Folclore, Revista Brasileira de Música, Brasiliense, Revista de Música Latino-Americana, entre outras. Uma outra fonte da qual Tinhorão fez muito uso são os folhetos do século 19 que publicavam as letras de canções populares. A partir do século 20 surgiram os jornais de modinhas, vendidos, até a década de 40, e dos quais ele também guarda exemplares. Somam-se a esse material 11 coleções de Suplementos Literários de jornais do Rio de Janeiro e São Paulo como A Manhã, O Estado de S.Paulo, Correio Paulistano e Correio da Manhã. “Grande parte do que se discutia culturalmente no Brasil não ia para livros, era publicado como ensaio nesses suplementos dos jornais.”
Na parte fonográfica, o pesquisador juntou cerca de 6 mil LPs e 8 mil discos 78 e 76 rpm. Estão lá discos do início do século da Favorite Records, Phoenix, Casa Faulhaber, Columbia, e de pequenas gravadoras como Trovador, Imperador e Brasil Fone. Entre os LPs de 10 polegadas, cerca de 300 são de música brasileira. Durante muito tempo esse acervo esteve confinado numa kitnet de 31 m² onde Tinhorão morava. Sua coleção da revista O Malho ficava empilhada atrás da porta e quase teve o primeiro volume perdido por causa de um vazamento no apartamento de cima. A situação de seu acervo o estimulou a tentar encontrar um local que pudesse abrigá-lo. Um deles foi a Casa Mário de Andrade, mas um dos assessores do secretário de Cultura do Estado disse que discos de música popular não tinham nada a ver com Mário de Andrade. Um absurdo se pensarmos que ele foi pesquisador da música popular e escreveu obras como Ensaios sobre a Música Brasileira, Compêndio de História da Música e Aspectos da Música Brasileira. A outra tentativa de Tinhorão foi o Instituto de Estudos Brasileiros da USP (IEB), que esquivou-se da responsabilidade.
Foi o Instituto Moreira Salles que encampou o acervo para integrá-lo à Reserva Técnica Musical. A compra aconteceu em 2000, e Tinhorão pode salvar seu legado da destruição e, melhor de tudo, colocá-lo ao acesso do público. “As pessoas têm determinadas opiniões porque não conhecem. E não conhecem porque não têm um lugar em que possam ir e encontrar informações. Lugar nenhum do mundo reúne, como aqui, toda a informação a respeito de determinado tema”, diz.

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