terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Memória do choro

A tradição chorona remonta ao século 19, quando a música européia dominava os salões onde aconteciam os bailes da elite brasileira. E foi imprimindo um jeito tupiniquim na hora de tocar essa música que grupos de instrumentistas populares do Rio de Janeiro criaram a base do choro. “A partir da década de 1880, com a proliferação dos pequenos grupos de flauta, violão e cavaquinho, transformados em acompanhadores do canto de modinhas sentimentais e tocadores de polcas-serenatas à noite, pelas ruas, e em orquestras de pobre, para fornecimento de música de dança nas casas dos bairros e subúrbios cariocas mais humildes, a música do choro vai se tornar cada vez mais popular”, escreve José Ramos Tinhorão em Pequena História da Música Popular.

Mais de um século depois, os músicos Maurício Carilho e Anna Paes mergulharam em uma pesquisa que levantou o nome de 1.300 compositores de choro nascidos entre 1830 e 1880, além de 6 mil composições desse período. Juntos, eles vasculharam arquivos públicos e particulares para trazer de volta à tona o começo da história do choro, que se confunde com a história da música produzida no Brasil.

Habituado a guardar partituras, Maurício começou a sistematizar uma pesquisa em 1999. Junto com Anna, apresentou o projeto de levantamento e agrupamento de composições e compositores do século 19 para a Fundação Rio Arte e conseguiu uma bolsa de um ano e meio para desenvolver a pesquisa. Durante esse período e por mais uns seis meses bancados do próprio bolso, eles se embrenharam numa busca por partituras e cadernos de choro. O alvo não eram apenas os compositores mais conhecidos, mas também aqueles que não tiveram muita projeção com o seu trabalho, apesar de sua importância.

“Os acervos mais importantes para a pesquisa foram a Biblioteca Nacional e a Coleção Mozart Araújo, que está sob a tutela do Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro”, conta Maurício. “Integrando a coleção Mozart Araújo encontramos a cópia do acervo de Donga, no qual tinha coisas de um compositor chamado Frederico de Jesus, que era copista de grandes músicos da época, como Pixinguinha e João Pernambuco”, completa. Posteriormente, esses dados foram confirmados por Lígia Santos, filha de Donga e com quem está o arquivo original do sambista.

O que os pesquisadores mais lamentam é não ter tido acesso ao acervo do Museu da Imagem e do Som (MIS) do Rio de Janeiro, onde está o acervo de Jacob do Bandolim e Almirante. Eles também não conseguiram acessar os arquivos de Chiquinha Gonzaga e Pixinguinha, dois dos maiores nomes do choro. O primeiro porque está sob a tutela da Sociedade Brasileira de Autores de Teatro (SBAT), que não permitiu o acesso. O segundo porque estava sendo inventariado pelo Instituto Moreira Salles, que comprou o acervo do músico.

Felizmente, Mauricio acabou conseguindo a “cópia da cópia” de algumas partituras que estão no MIS do Rio de Janeiro. De Chiquinha e Pixinguinha, por serem mais conhecidos, foi mais fácil encontrar alguém que tivesse as partituras. “Já tínhamos algumas coisas de Chiquinha porque uma vez fizemos um trabalho para o CCBB e tivemos acesso ao arquivo”, conta Anna Paes.

Para o trabalho ficar completo, não bastava pesquisar, encontrar e fazer uma cópia das partituras. Maurício conta que numa de suas buscas encontrou um caderno escrito por volta de 1830 que teve uma parte devorada por cupins. “Em algumas músicas tive que fazer o trabalho de restauração na própria composição, seguindo o estilo do músico e tentando encontrar o acorde que ele próprio faria”, explica.
Dentre as pessoas que ajudaram na empreitada está o pesquisador Jairo Severiano, que cedeu 8 cadernos de choro que estavam em seu poder. O músico
Izaías, de São Paulo, abriu o seu arquivo para os pesquisadores.
Anna Paes cita ainda o flautista amador Gérson Ferreira Pinto, que herdou muitas partituras e deixou livre o acesso ao seu acervo: “Ele tem um caderno, todo escrito em caneta tinteiro, que provavelmente pertenceu ao pai de Pixinguinha”.

Uma parte do material levantado deu origem à caixa Princípios do Choro, um pacote com 15 CDs distribuídos em 5 caixas de 3 discos cada uma. Dentre os 50 compositores selecionados para compor as 248 faixas dos discos da coleção estão: Cândido Pereira da Silva, Chiquinha Gonzaga, Ernesto Nazareth, Henrique Alves Mesquita, Anacleto de Medeiros, Joaquim Callado, Viriato Figueira, Mário Álvares da Conceição e Irineu de Almeida. Os dois últimos foram professores de Pixinguinha e mereceram um CD exclusivo cada um. Foi com Irineu, inclusive, que Pixinguinha fez sua primeira gravação, participando do tango brasileiro São João Debaixo D’água.

A execução das obras desses mestres ficou por conta de 36 músicos contemporâneos escolhidos a dedo: Altamiro Carrilho, Toninho Carrasqueira, Proveta, Paulo Sérgio Santos, Joel Nascimento, Pedro Amorim, Sérgio de Jesus,Vítor Santos, Luciana Rabello, Márcio de Almeida, João Lyra, Cristóvão Bastos, Álvaro Carrilho, Luiz Otávio Braga, Ronaldo Souza, Rogério Souza, Jorginho do Pandeiro, Celsinho Silva, Rui Alvim, Marcelo Bernardes, Ricardo Amado, Luís Flávio Alcofra, Eliezer Rodrigues, Juliano Barbosa, Bernardo Bessler, Hugo Pilger, Jessé Sadoc, Andréa Ernest Dias, Cristiano Alves, Zé Paulo Becker, Leonardo Miranda, além do próprio Maurício Carrilho.

Como complemento a esses discos foram publicados os cadernos Princípios do Choro, cinco volumes que trazem as partituras das músicas que estão nos CDs. Esse trabalho vai permitir que muitas gerações tenham acesso ao que foi produzido no século 19. “A literatura de choro era muito mal tratada e editada e tinha péssima revisão. Esses cadernos vão servir não apenas para pesquisa, mas também para quem quiser estudar o choro”, afirma Luciana Rabello, da gravadora Acari Record, parceira do projeto.
Um outro fruto da pesquisa é o CD Mulheres do Choro, com composições de 14 choronas, desde Chiquinha Gonzaga até Luciana Rabello. A pesquisa levantou o nome de 123 compositoras, mas até hoje a única que ficou conhecida foi Chiquinha Gonzaga. Lina Pesce, Carolina Cardoso de Meneses, Tia Amélia, Ludovina Vilas Boas, Ernestina Índia do Brasil e Joana Leal de Barros estão entre as compositoras lembradas no disco. Esta última, apesar de pouco conhecida, era contemporânea de Chiquinha Gonzaga que, inclusive, compôs uma música em sua homenagem: Janniquinha, a 11º faixa do disco. “Na partitura dessa música Chiquinha deixou escrito que era dedicada à Joana”, conta Luciana.

A busca de Mauricio e Anna rendeu ainda uma caixa de 5 CDs com a gravação da obra completa de Joaquim Callado (1848-1880), considerado o “pai dos chorões no Brasil”. Foi ele quem incorporou a flauta aos grupos de choro. José Ramos Tinhorão relata no livro Pequena História da Música Popular que “os conjuntos formados por Calado alguns anos antes de sua morte, em 1867, e que incluíam entre seus componentes alguns dos mais competentes músicos do tempo, inclusive a jovem pianista Chiquinha Gonzaga, seriam certamente os mais importantes dessa fase de fixação do estilo choro”. Sendo assim, só podemos dizer obrigada aos pesquisadores!

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