quarta-feira, 3 de junho de 2009

Leon Barg

*Esse texto foi escrito em 2002, portanto, os dados e citações correspondem àquele período

Leon Barg é mais do que um apaixonado, é um aficionado por música brasileira. Ele chegou a passar 55 anos em busca de um exemplar do selo Brunswick que traz a interpretação de Carmem Miranda para o choro Se o Samba é Moda. E conseguiu. Num lote de 3 mil discos que comprou, do qual apenas 10 eram inéditos para sua coleção, estava a tão procurada canção. Foi abraçando essa paixão, e desejando compartilhá-la com quem mais quisesse, que Leon criou a Revivendo Músicas, gravadora responsável pela recuperação e preservação de um momento importante da música brasileira: as décadas de 20, 30, 40 e 50.

Nascido em 1930, o pernambucano Leon Barg era representante comercial e foi parar em Curitiba na década de 50. Já era adulto quando começou a comprar muitos discos, assim que as condições financeiras permitiram. Nos anos 70 já tinha cerca de 20 mil títulos em seu acervo, que hoje contabiliza mais de 120 mil entre 78 rotações nacionais, internacionais e LPs. Só os títulos nacionais em 78 rotações somam 64 mil.

Antes de criar a Revivendo, Leon ficava próximo da música vendendo instrumentos musicais. Isso mesmo. Ele era o proprietário de uma loja (que existe até hoje e é administrada por seu filho) que comercializava instrumentos e também vendia alguns discos. Foi nesse ambiente, convivendo com músicos profissionais e amadores e com pessoas que se interessavam por música, que ele amadureceu a idéia de criar uma gravadora. Leon percebeu que havia uma procura significativa pela música brasileira mais antiga e que essa demanda não era suprida pela produção da grande indústria fonográfica. Não deu outra: em 1987 ele montou a Revivendo com o intuito de reeditar o seu próprio acervo. "A coleção foi crescendo e, ao invés de deixá-la entre quatro paredes, meu pai resolveu compartilhá-la com as pessoas", conta sua filha Laís Barg, responsável pela parte gráfica dos discos e pela produção, venda e divulgação em São Paulo.

Desde o primeiro LP lançado pela gravadora, com Francisco Alves e Orlando Silva cantando versões, até hoje, já são mais de 170 títulos no catálogo da empresa. Funcionando com uma estrutura familiar - a base é formada por Leon e suas duas filhas, Laís e Lílian Barg - a Revivendo mantém um moderno estúdio de recuperação de gravações e eliminação de ruídos. É nele que os antigos 78 rotações são manuseados e recuperados para que o som remasterizado fique o mais próximo possível do som original. Embora existam técnicos que trabalham para a Revivendo, quem comanda todo o processo é o próprio Leon. Com um ouvido apuradíssimo, ele é capaz de gastar um ou dois dias na recuperação de uma única faixa, preocupando-se, inclusive, em trabalhar os níveis de volume das faixas, para que o CD fique com um som mais homogêneo.
O zelo de Barg é tão grande que ele chega a ter em seu arquivo mais de uma cópia do mesmo disco para que possa escolher o que está em melhor qualidade e, até mesmo, selecionar as faixas menos danificadas. E não são apenas dois exemplares. Há casos em que ele acumula cinco cópias de um disco. "Mas eu só fico com três. As outras eu dôo para quem se interessar ou para alguma instituição. Só não vendo", diz ele.
"Se um disco cai na minha mão não sai", afirma Leon. "Cheguei a comprar uma coleção fechada de 6 mil discos de um amigo que mora em Rio das Ostras. Quando fui olhar o que tinha, eu só não possuía 19 títulos", completa. Leon conta que para onde vai carrega a sua "bíblia", um bloco onde tem anotadas várias séries numeradas de discos, separadas em listas organizadas por gravadoras. A cada novo exemplar que consegue ele risca um da sua listinha e já sai em busca de outro.

O colecionador já percorreu muitos lugares do Brasil a procura de discos, mas hoje faz todos os contatos por telefone. "As pernas não ajudam", comenta numa lamentação feliz. Quando precisa, ele manda caixas vazias pelo ônibus para que o fornecedor possa lhe enviar os discos. Em outros casos, faz uso dos serviços de uma transportadora.

A grande quantidade de discos que compõem o acervo de Leon Barg e a fragilidade desse material levaram à montagem de um esquema especial para acondicionar o acervo. Assim que chegam às suas mãos os discos são lavados com detergente, colocados para secar - porque a umidade pode mofar o selo -, guardados em envelopes, numerados e colocados no escaninho. E não pense que isso é demais para guardar discos antigos. Muitos dos 78 rotações eram produzidos com cera de carnaúba e foram se perdendo por quebra, corrosão por fungos ou mesmo esquecidos em depósitos inadequados para o armazenamento.

Embora seja uma empresa como outra qualquer, que precisa das vendas para sobreviver, a Revivendo se propõe a só colocar trabalhos de qualidade no mercado. Todos os seus discos vêm acompanhados por um encarte que traz textos biográficos e ficha técnica das músicas. "É uma fonte de pesquisa", afirma Laís. O pesquisador Abel Cardoso Júnior é o fiel escudeiro de Leon nessa parte: é ele quem a escreve a maioria das contracapas dos CDs, faz os comentários e a apresentação. “Quando necessário eu também transcrevo as letras. Vou ouvindo as músicas e escrevendo”, completa. Algumas vezes ele recorre às editoras para facilitar o trabalho.

A tiragem inicial dos lançamentos Revivendo é de mil exemplares e, às vezes, é feita uma nova tiragem de apenas 500 discos se for necessário, o que aumenta os custos. Outra preocupação é colocar num mesmo CD cerca de 23 faixas, pelo que também se paga mais caro. "Mas isso permite que se dê uma maior abrangência da obra do compositor", conta Laís. "A Revivendo se sustenta, mas não dá lucros. Praticamente tudo o que entra é reinvestido na própria gravadora", completa.

Além disso, a Revivendo também se preocupa em melhorar a qualidade técnica de seus trabalhos sempre que possível. Por isso, se algum lançamento mais antigo tiver que ser relançado, o trabalho é todo refeito usando as tecnologias mais avançadas. Alguns dos títulos que saíram em LP nos primeiros cinco anos da Revivendo já foram retrabalhados e hoje é possível encontrá-los em CD.

"A idéia da Revivendo não é lançar apenas o 1º time, mas também grandes compositores e intérpretes que não ficaram conhecidos", explica Laís. É muito comum um CD da Revivendo trazer dois artistas, sendo um mais conhecido e outro menos conhecido. "É proposital. Uma maneira de tentar fazer com que as pessoas conheçam outros nomes, e também uma forma de tentar preservar a música brasileira na sua totalidade", conta Laís. "Mesmo que não tenha grande vendagem, faz parte do intuito da Revivendo", completa.

Uma grande empreitada abraçada por Leon Barg é a série Carnaval - Sua História, Sua Glória, que teve seu primeiro volume lançado no início da década de 90 e hoje já tem 22 volumes, ou seja, são mais de 460 composições. E já estão previstos o lançamento de mais seis títulos. Apenas os volumes um e dois estão fora de catálogo.
Embora tenha uma proposta diferenciada, a Revivendo não vive em guerra com as grandes gravadoras. "A Continental, hoje Warner, perdeu seus arquivos numa enchente na Avenida do Estado; A BMG sofreu um incêndio; a EMI reaproveitada as matrizes feitas em níquel porque era um material muito caro. Hoje, essas gravadoras são as detentoras dos fonogramas, mas não têm os fonogramas. Aí, o trabalho da Revivendo acaba sendo um serviço para elas, que podem reconstruir seus arquivos", explica Laís Barg. Fora isso, a Revivendo já cedeu fonogramas para grandes gravadoras. Quando a EMI foi lançar a caixa da Carmem Miranda, recorreu a Leon Barg que, prontamente, emprestou o material e acompanhou o pessoal da gravadora numa viagem à Londres, onde os CDs foram produzidos. Seus 78 rotações viajaram devidamente segurados, mas Leon diz que não adianta muito, afinal, se alguma coisa acontecesse não seria fácil encontrar todos os discos novamente.

Dentre as preciosidades do acervo de Leon Barg, a mais rara é a coleção completa de odeonettes de Francisco Alves. AS odeonettes eram a versão compacta dos 78 rotações, que não vingaram no mercado. Leon é o único no Brasil que tem essa coleção. "Ela fica trancada no cofre, como se fosse um diamante", revela Laís. A paixão que leva a esse ato não é apenas pelas raras odeonettes, mas também por Francisco Alves, grande referência musical de Leon: "Ele é o meu cantor favorito". Com 18 anos Barg conheceu o cantor e compositor pessoalmente, durante uma passagem dele por Recife. Nesse encontro, o rapaz ousou mostrar ao "Rei da Voz" uma composição de sua autoria. No fundo, tinha até uma esperança de gravá-la com ele, que, de maneira muito educada, explicou ao jovem aspirante a compositor que recebia muitas composições e não tinha como examinar todas as que lhe chegavam em mãos, e muito menos gravar todas as que lhe agradavam. A paixão é tanta, que Francisco Alves foi o primeiro homenageado pela Revivendo.

Um dos lançamentos da gravadora é a caixa Raros Compassos, que traz gravações raras de canções de Tom Jobim. São três CDs que mostram, entre outros, Vicente Celestino soltando a voz em Se todos fossem iguais a você, Elza Soares com Só danço samba e a desconhecida dupla caipira Mara & Cota interpretando Eu sei que vou te amar e Eu não existo sem você. Essas últimas foram feitas para um 78 rotações da Odeon, em 1959, por Sylvinha Telles e Estellinha Egg, que adotaram o pseudônimo de Mara & Cota numa jogada comercial que não deu certo. A maior parte dos artistas que estão na caixa são intérpretes que não pertenciam à Bossa Nova. Há ainda muitas canções de Tom desconhecidas, que fogem aos conceitos bossa novistas, como Frase Perdida, entoada por Ernani Filho, Samba não é brinquedo na voz de Dora Lopes, ou então Cauby Peixoto interpretando o samba Oficina.

Muito do que é lançado pela Revivendo é escolhido a partir do gosto pessoal de Leon ou pela importância que o compositor ou intérprete teve na música brasileira. Mas a empresa também considera muito as sugestões de clientes: "Recebemos muitos pedidos e procuramos, na medida do possível, atender nossos público", explica Laís. Material para isso é o que não falta no acervo da gravadora guardiã da música brasileira.

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