quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Adoniran Barbosa

Neste ano, comemora-se o centenário de Adoniran Barbosa. Remexendo meus guardados, encontrei a transcrição que eu e o jornalista Aloísio Milani fizemos com Maria Helena Rubinato, a filha de Adoniran, quando ainda estávamos na faculdade. Não me lembro exatamente em que ano isso foi feito, mas com certeza entre 2000 e 2002. A entrevista foi gravada em um MD que não sei onde está. A transcrição tem falhas, coisas que não entendi e não me lembro direito. Mas foi algo bem tocante, principalmente quando ela disse o quanto se sentia incomodada pelo relacionamento esparso que teve com o pai, o que não impediu as lembranças carinhosas. Vou publicar aqui os principais trechos dessa entrevista. Editei um pouco, tirei algumas coisas, acrescentei algumas palavras para tudo fazer um pouco mais de sentido, mas ainda está bem tosco, em uma linguagem mais falada do que escrita. Aqui, essa é a idéia.

Sobre uma música que ele teria feito para a mãe dela
“Um amor que já passou. Ele não gravou, mas já gravaram. Não sei como é que chegaram nela, porque eu ganhei de um cidadão daqui do Rio que mexe com música. Segundo ele, é o original da partitura, aquela que a editora faz, mas está escrito com a letra dele “Para Olga”. Nem gosto muito dessa música”

Sobre a convivência com Adoniran
“Eu tinha seis meses quando eles se separaram, portanto a convivência até os seis meses é claro que não me lembro. Aí morei em São Paulo até os dois anos e, naturalmente, devia vê-lo com frequencia, mas também não me lembro. Aí vim para o Rio e enquanto eu fui muito pequenina ele vinha ao Rio com mais freqüência. Ele ficava na casa da irmã dele, onde eu estava. Daí ele foi diminuindo a freqüência. Ele detestava o Rio de Janeiro. E eu ia a São Paulo sempre nas férias. Isso foi até a adolescência. Depois a convivência ficou mais esgarçada ainda, porque adolescente já é mais difícil, não quer sair do lugar onde tem os amigos, os passeios, os programas, aquelas coisas. Mas eu ia pelo menos uma vez por ano e ele vinha ao Rio também uma vez por ano. Foi uma convivência mais esparsa mesmo, coisa até que me incomoda lembrar. Mas foi o destino, foi a vida, coisa que não tem como consertar agora”.

Sobre o fato de ter sido criada pelos tios

“Fui criada pela irmã dele, minha tia, que eu passei a chamar de mãe, e o marido dela, que eu passei a chamar de pai. Foram meus pais mesmo porque desde os seis meses, né?E, aliás, excelentes. Ele, então, que não era nem meu tio verdadeiro, foi um pai extraordinário. E o próprio “paizão” (eu chamava o Adoniran de “paizão”, sempre chamei), se referia a ele como “o seu pai”. Para o meu filho, ele dizia “trata bem do seu avô, o seu avô é um grande homem”.

Sobre a separação dos pais

“ele não gostava de comentar essas coisas. Por exemplo que o pátrio-poder ele não quis ceder. Ele perdeu a guarda, ele e ela, no desquite litigioso, e a minha tia, que eu chamo de mãe, passou a ser minha tutora legal. Mas, por exemplo, ela não podia botar o nome dela, me perfilhar, isso ele não queria. Eu fiquei como Maria Helena Rubinato até casar. Ele era um homem muito engraçado, muito divertido de ouvir falar, a gente ria muito, mas muito sério, aparentemente muito sério, e muito introvertido”.

Sobre a ascendência italiana
“Aquele gênio que nós sabemos de italiano, que ora está alegre, ora rabugento. Mas a única vez que eu o vi muito emocionado foi quando ele conheceu o neto. Ele aí baqueou e não pode fazer aquela persona. Ele baqueou mesmo”.

Sobre a persona quando estava com a filha
“Eu acho que com todo mundo né? porque, não sei se é próprio das pessoas que sofrem muito na vida, ou na infância, porque a irmã dele também tinha isso, os outros irmãos também, todos meio com vergonha de expor seus sentimentos, mais fechados, não querendo demonstrar muito afeto. Não eram assim muito beijoqueiros, nem de abraçar. Olha, italiano típico, que tanto pode um dia estar muito bem como dali a meia hora estar zangado, brigando. Mas ele foi muito feliz com a segunda mulher, foi um casamento que deu certo. Ela só tinha elogios a ele. A gente via que ele gostava muito dela. Eles viveram 40 anos juntos”.

Sobre a convivência com a Matilde (a segunda esposa de Adoniran)

“Conheci, conviver não. Sempre soube dela, conheço desde pequenininha. Eu acho que eles foram morar juntos eu tinha uns cinco anos e, quando eu ia a São Paulo, eu ia para o apartamento deles passar o dia, ela fazia as comidas que eu gostava, aquelas coisas. Eu me lembro desse paparico. A gente falava muito pelo telefone. Eu falava mais com ela do que com ele. Ela ligava, queria saber como é que eu ia, saber das coisas, dos namorados. Ela era mais extrovertida e mais meiga, gostava de saber. Não sei se era sermão encomendado ou se era espontâneo dela, mas acho que era espontâneo dela”.

Sobre vê-lo fazendo os programas de rádio

“Os programas de rádio tinham platéia antigamente. E eu me lembro de ver a Escola Risonha, ele de aluno, aquele chapéu de palha. Eu, aliás, tenho um retrato dele vestido de Barbosinha, com uma dedicatória e tudo”.

Sobre a lembrança de piadas
“Não tenho. Quem sabe é o meu primo Sérgio, que foi o sobrinho que mais conviveu com ele porque morava em São Paulo, era rapaz e saía à noite com ele. O Adoniran era boêmio, quando moço. Quando mais velho, era o boêmio que chegava cedo em casa, mas era boêmio. Aqui do Rio eu acho curioso isso, ele não gostava do Rio, mas foi aqui que a música de mais sucesso dele teve prêmio, que foi o Trem das Onze, que ganhou o prêmio do IV centenário do Rio de Janeiro. Ele venceu sambas cariocas, e foi aí que o nome dele estourou nacionalmente”.

Sobre falar errado
Essa irmã dele, a Inês, que me criou, brigava com ele porque ele escrevia tudo errado. Se ele sabia falar direito, por que tinha que escrever tudo errado? por que não escreve certo? Ele dizia que ela não estava entendendo coisa nenhuma. Aí, com ela, às vezes ele falava ‘nóis vai’ só para irritá-la. Mas ele sabia perfeitamente falar. Aliás, tem uma frase dele que anda sendo deturpada por aí, mas que é assim. “pra falar errado, você tem que saber falar certo”.

“Eu acho que você só pode deformar a língua propositadamente conhecendo muito bem. Tem um texto do Antonio Candido na capa de um disco do paizão sobre a linguagem do Adoniran que é uma maravilha”.

Sobre os amigos do Adoniran em São Paulo

“Só me lembro de conhecer o Oswaldo Moles e o Blota Júmior, não me lembro de conhecer mais nenhum. Ele não era de levar amigos em casa. A casa dele era a casa dele. Ele era de encontrá-los na rua. São muito poucos os que foram na casa dele. Um dos que eu tenho certeza foi o Carlinhos Vergueiro, que ele adorou, achou uma simpatia. Isso ele me disse um dia pelo telefone, que tinha um rapaz que ele havia conhecido e morava no Rio, que ele gostava muito e queria que um dia eu conhecesse. E um dia eu conheci mesmo. É realmente uma simpatia”.

Sobre Elis Regina
“Ele gostava muito dela, pessoalmente, da pessoa dela. Ele achava uma simpatia e aprendeu a querer bem. E a Clara Nunes. São as duas que ele aprendeu a querer bem como gente, pessoa. Acho aquele vídeo que tem ele passeando com a Elis no Bixiga uma maravilha”.

Sobre Nair belo

A Nair Belo parece que também era muito amiga dele. A Hebe também fez uma homenagem a ele, lindíssima, quando ele morreu, que me emocionou muito.

Sobre os brinquedos que Adoniran fazia

“Desde muito cedo, todos eles tinham um jeito com as mãos extraordinário. Ele fazia miniaturas que eram realmente lindas. Mas muita coisa se perdeu. Eu tinha uma bicicletinha que eu ganhei quando era criança e de tanto brincar quebrou. E ele fez uma para o meu filho, que de tanto brincar quebrou também”.

Sobre as músicas que mais gosta
“Adoro Vila Esperança porque me lembra um pouco o Nino Rota, que fazia as músicas dos filmes do Fellini. Trem das Onze acho graça na letra da música. Tenho um filho único que diz que aquilo foi a maldição, porque ele tem que voltar para casa pra cuidar da mãe, e Tocar na Banda, que eu sempre digo que tem que ser o Hino Nacional.

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